Para a psicanálise, ser desligado ou distraído não é um traço de personalidade imutável.

Olá amigos!

No nosso Curso sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana estamos estudando agora o capítulo VII – O esquecimento de impressões e intenções. É um capítulo fantástico, com muitos exemplos ilustrativos do conflito psíquico interno entre o que Freud aqui chama de vontade e contra-vontade.

No texto de hoje, gostaria de salientar um aspecto muito interessante que está em uma nota de rodapé e explica a distração segundo a psicanálise.

A Distração explicada pela psicanálise

Antes de passarmos à nota, convém introduzir o conteúdo do capítulo. Freud, embora não tenha um modelo explicativo completo sobre a memória e o esquecimento (até hoje não temos), procura analisar eventos do cotidiano que elucidem a influência do inconsciente.

Por exemplo, ele conta a seguinte história:

“Um homem”, relata Brill [1912], “foi pressionado por sua mulher a participar de um acontecimento social a que, no fundo, era indiferente. Cedendo aos apelos da esposa, começou a tirar do baú seu traje de gala, mas, de repente, resolveu barbear-se primeiro. Depois de fazê-lo, voltou ao baú, encontrou-o trancado e, apesar de uma longa e intensa busca, não conseguiu encontrar a chave. Sendo domingo à noite, era impossível chamar um chaveiro, de modo que o casal teve que desculpar-se pelo não comparecimento. Quando o baú foi aberto na manhã seguinte, lá dentro se encontrou a chave perdida. Distraído, o marido a deixara cair dentro do baú e depois fechara o cadeado. Ele me garantiu que o fizera sem nenhuma intenção e inconscientemente, mas sabemos que não queria comparecer ao acontecimento social. Portanto, não faltava motivo para o extravio da chave” (FREUD, p. 154).

Temos, portanto, duas intenções conflitantes:

– A vontade de não ir

– A vontade de ir (à pedido da mulher).

Do ponto de vista da intenção consciente – ou supostamente consciente – o que aconteceu foi um ato falho, um erro. Entretanto, do ponto de vista inconsciente, foi um acerto.

De modo que, em situações como essas, tendemos a justificar o nosso erro dizendo que foi uma infelicidade ou que foi uma acidente ou, mais comum, que foi causado pela falta de atenção ou distração.

Na nota de rodapé acrescentada na edição de 1910, Freud escreve:

“Ferenczi relata que ele próprio já foi um ‘distraído’ e que era famoso entre seus conhecidos pela frequência e singularidade de seus atos falhos. Mas, diz ele, os sinais dessa ‘distração’ desapareceram quase por completo desde que começou a praticar o tratamento de enfermos pela psicanálise e viu-se obrigado a voltar sua atenção também para a análise de seu próprio eu. Ele é de opinião que se vai renunciando a esses atos falhos à medida que se aprende a ampliar a própria responsabilidade. Por isso sustenta, justificadamente, que a distração é um estado que depende de complexos inconscientes e pode ser curado pela psicanálise. Um dia, contudo, ele se estava recriminando por ter cometido um erro técnico na psicanálise de um paciente. Nesse dia, todas as suas antigas ‘distrações’ reapareceram. Tropeçou diversas vezes ao andar pela rua (uma representação de seu faux pas [passo em falso] no tratamento, esqueceu a carteira em casa, tentou pagar um kreutzer a menos pela passagem de bonde, não havia abotoado direito suas roupas etc” (FREUD, p. 167).

Através desta nota de rodapé podemos tirar algumas conclusões sobre o fenômeno da distração. Estes pequenos erros, sem consequências maiores, relatados por Ferenczi como tropeçar, errar os botões da roupa e o valor de uma passagem são pequenos e banais. São cotidianos e passam até desapercebidos – a não ser talvez pela ideia de que estamos tendo um mal dia ou um dia de azar.

Mas a distração, infelizmente, também pode ocasionar erros maiores, bem maiores do que esses, alguns deles até fatais como acidentes de carro, por exemplo.

Grandes ou pequenos estes erros são explicados pelo princípio da interferência de duas intenções simultâneas: uma intenção consciente e uma intenção inconsciente, uma vontade e uma vontade que vai contra a vontade inicial, portanto, uma contra-vontade.

O que chama a atenção nesta nota de rodapé do Psicopatologia da Vida Cotidiana é que, além de retirar a distração como um fenômeno atribuível à personalidade ou ao caráter de alguém (e, consequentemente um traço imutável), a psicanálise não só explica o sentido destes acontecimentos como permite, através do tratamento propiciado pela análise, com que estes atos falhos diminuam ou cessem.

No convívio social, conseguimos desculpar alguém por um erro insignificante. Mas alguns atos falhos podem impactar uma relação e ter consequências muito desagradáveis. Freud dá o exemplo do namorado que esquece um compromisso com sua amada. Embora isso possa ser justificado por um esquecimento sem maiores importâncias, como uma distração ou como desatenção, a namorada não vai ficar contente e geralmente vai procurar atribuir um sentido maior ao fato. Por exemplo, dizendo que ele não se importa mais com ela, que no começo da relação não havia esse tipo de falta de consideração, e por aí vai.

Ou seja, no convívio social já entendemos que existem motivos inconfessáveis por detrás de certos erros. Com a psicanálise, é possível entender o significado destes erros. E com a análise é possível ampliar o horizonte de perspectiva e, com isso, ter mais consciências de nossas vontades (e contra-vontades) – o que certamente aumenta também a responsabilidade pelos nossos atos e diminui a margem para que os atos falhos nos atrapalhem ou machuquem os outros.

Dúvidas, sugestões, comentários, por favor, escrevam abaixo.

Psicólogo Clínico e Online (CRP 06/145929), formado em 2006, Mestre (UFSJ) e Doutor (UFJF), Instrutor de Mindfulness pela Unifesp. Como Professor no site Psicologia MSN venho ministrando dezenas de Cursos de Psicologia, através de textos e Vídeos em HD. Faça como centenas de alunos e aprenda psicologia através de Cursos em Vídeo e Ebooks! Loja de Vídeos e Ebooks. Você pode também agendar uma Sessão Online, Terapia Cognitivo Comportamental, Problemas de Relacionamentos, Orientação Profissional e Coaching de Carreira , fazer o Programa de 8 Semanas de Mindfulness Online. E não se esqueça de se inscrever em nosso Canal no Youtube! - no TikTok -, e Instagram! Email - psicologiamsn@gmail.com - Agendar - Whatsapp (11) 9 8415-6913