O que não quer dizer nada, sempre quer dizer qualquer coisa (Fernando Pessoa).
Olá amigos!
Gostaria de começar o texto de hoje fazendo uma pergunta e um desafio. Você fala uma língua estrangeira? Não? Sim? Se você fala, ótimo! Se você não fala, o desafio é para você: aprenda! E se você fala, procure aprender outra. Uma língua estrangeira é útil não só porque nos dá possibilidades de trabalho e estudo, além da evidente perspectiva de poder conversar com pessoas de outras culturas.
Uma língua estrangeira nos dá muito mais! O principal objetivo, em minha opinião, é que, ao aprendermos uma nova língua, podemos passar finalmente a entender o que é a nossa própria língua.
Wittgenstein, o famoso filósofo da linguagem, dizia: The limits of my language mean the limits of my world. Tradução:
“Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo”.
E Goethe teve a felicidade de criar uma frase sobre a linguagem que é extremamente sucinta e precisa: “Wer fremde Sprache nicht kennt, weiß nichts von seiner eigenen”, que quer dizer:
“Aquele que não sabe nenhuma língua estrangeira, não sabe nada da sua própria língua”.
Bem, se você ainda não teve a chance de aprender uma outra língua, tudo bem. Mas faça um esforço. Hoje em dia até sem dinheiro é possível aprender pela internet. Veja aqui – Cursos de idiomas gratuitos: inglês, espanhol, francês e alemão
Mas voltando ao tema do nosso texto, aprender uma outra língua nos permite entender um princípio fundamental sobre a nossa própria língua. Aliás, sobre toda e qualquer língua. Uma palavra, escrita ou falada, é só isso: um significante.
Um exemplo do chinês
O ideograma chinês 人 ( rén – rén shì ) significa pessoa. Do mesmo modo que pode parecer bizarro para nós que um símbolo, uma imagem, e um som como rén – rén shì tenha um significado, para um chinês, a palavra pessoa, person, Personne também será um som e uma imagem qualquer. Não significará nada. Será tão somente um significante, uma imagem acústica, destituída de sentido, de significado.
Recentemente eu descobri um site muito interessante para quem quer aprender chinês. Chama-se chineasy.org (um trocadilho com a palavra inglesa easy e chinese). Só por curiosidade, vou postar uma imagem com algumas palavras para vermos como o significante é arbitrário:
Para facilitar a aprendizagem, o site criado pela Shaolan (você pode ver uma palestra dela no TED clicando aqui), o site coloca o ideograma (em preto) envolto em imagens. Como vimos 人 significa pessoa. Shaolan nos ensina que a imagem é como uma pessoa andando, de perfil.
O que é bacana do chinês é que é uma linguagem totalmente visual. Então, nós temos centenas de palavras que serão formadas com este ideograma inicial:
Estes são alguns exemplos. Amanhã é formado pelo ideograma Sol-lua-sol, o que tem um significado muito claro. Depois que a lua desaparecer e o sol reaparecer, será amanhã. Gostei especialmente do ideograma para Raiva: fogo + pessoa! Ter raiva é estar envolto em fogo. Não dizemos, estar vermelho de raiva?
Bem, embora faça sentido, ainda assim não deixa de ser um sentido arbitrário, construído, elaborado por uma determinada sociedade, por uma determinada cultura. E é justamente neste ponto que está a resposta para a pergunta: por que (ainda) nos ferimos por palavras?
Por que (ainda) nos ferimos por palavras?
A resposta para esta pergunta é porque as palavras tem sentido para nós. Se não falamos português, as palavras significantes (sons vazios) são apenas sons vazios. Depois que aprendemos a língua vamos ser constantemente afetados por estes sons, que não serão mais vazios: terão significado, terão sentido.
Se eu digo: “como você é burro!” o som destas palavras pode despertar um profundo sentimento de tristeza, raiva, descontentamento, ódio, desprezo. Mas no fundo, bem no fundo, o som “como você é burro” é um som tão vazio como “du bist so dumm” ou “you’re so dumb” ou “你是如此愚蠢”…
Então, aprendemos uma língua. As palavras ganham sentido. E as palavras fazem referências a coisas, objetos concretos e abstratos, ações, tempo, espaço, emoções…
Psicologia – ACT e RFT
Estou começando a estudar agora a ACT (Acceptance and Commitment Therapy) que é uma das correntes mais modernas da terapia comportamental, em português, Terapia da Aceitação de Compromisso, que também utiliza técnicas de Mindfulness.
A ACT, por sua vez, se baseia na RFT (Relational Frame Theory), traduzido por Teorias das Molduras Relacionais ou Quadros Relacionais. Segundo Steven Hayes:
“A premissa básica da RFT é que o comportamento humano é governado largamente por redes de relações mútuas chamadas de quadros relacionais. Essas relações formam o centro da linguagem humana e de sua cognição, e nos permite aprender sem depender de uma experiência direta. Por exemplo, um gato não vai tocar em um fogão quente duas vezes, mas ele vai precisar tocar uma vez para aprender. Uma criança não vai precisar tocar para aprender que o fogão pode queimar, pois ela aprende verbalmente. No mundo externo, esta habilidade é uma ferramenta sem comparação. Mas em termos de nossas vidas internas, as regras verbais podem restringir as nossas vidas de maneiras prejudiciais”.
A criança faz a relação: fogão = queimar
Até aqui tudo bem. Mas vamos nos aprofundar no conceito de relação. Steven diz:
“Os seres humanos são capazes de relacionar objetos em seu ambiente, pensamentos, sentimentos, predisposições comportamentais, ações (basicamente tudo) a quaisquer outros objetos em seu ambiente, pensamentos, sentimentos, predisposições comportamentais, ações (basicamente qualquer coisa) de praticamente toda maneira possível (por exemplo, como similar, o mesmo que, melhor que, oposto a, parte de, causa de, e assim por diante”.
Ou seja, fazemos sempre e constantemente relações entre coisas. Uma coisa (um pensamento) e uma outra coisa (um objeto). Eu digo: “pense em um carro amarelo” e você consegue ver o carro amarelo. Fazemos relações de sentimentos com situações: “toda vez que escuto a música X me sinto alegre”. Fazemos relações entre ações e pensamentos. “Aquela pessoa fez aquilo, então é má, ou boa, ou feliz, ou saúdavel, etc”.
Em resumo: somos capazes de fazer relação de tudo com tudo, de maneiras que visam a comparar dois objetos quaisquer. Compararmos por:
– coordenação (o mesmo que, similar, como)
– tempo (antes e depois, se isso, então aquilo; pai e filho)
– avaliação (melhor que, maior que, mais rápido que, mais bonito que, etc)
– deíctico (referência a partir do sujeito que fala: eu, você, eles, etc)
– espacial (perto, longe, dentro, fora, etc)
Enfim, a nossa mente tem uma capacidade incrível de pensar e relacionar coisas. Mas qual é o X da questão? O X da questão é que nem sempre tais relações são verdadeiras! (No fundo, pensamentos em sons e imagens não passam de sons e imagens)… e que podem ser utilizadas para o bem ou para o mal.
Evidente que não queremos nos afastar da experiência de ouvir um “eu te amo”, mas temos que passar a ter a habilidade de nos distanciar e avaliar com calma o que quer que esteja nos afligindo.
Conclusão
Não é interessante analisar que possamos passar uma vida inteira sofrendo por causa de algumas palavras? Aprender uma língua estrangeira nos permite entender na prática como é o funcionamento de uma língua, o que nos dá a capacidade de nos distanciar dos sentidos que estão incrustados em nossa própria língua materna.
Não há quem não tenha sofrido pela linguagem. Mas certamente não precisamos ficar presos no sofrimento. Uma técnica boa é justamente perceber que a linguagem é apenas um som. Uma ofensa, nesse sentido, é como uma música ruim que acaba. Podemos continuar com a música na cabeça… ou simplesmente deixar de ouvir a música ruim e ouvir uma música boa ou nenhuma.
Mais para frente, falaremos mais sobre a ACT.
Dúvidas, sugestões, comentários, por favor, escreva abaixo.
Referência Bibliográfica
HAYES, Steven. Get out of your mind and into your life: the new acceptance and commitment threrapya. Kindle Edition.
Você fez uma boa pergunta e apresentou uma boa ideia, aprender uma nova língua. Precisamos pensar nisso! Abs,
EU NÃO SEI SE A PARTIR DA SEGUNDA LÍNGUA FICA MAIS FÁCIL APRENDER AS OUTRAS. EU ENCONTRO DIFICULDADES EM APRENDER LÍNGUA QUE NÃO PERTENÇAM AO LATIM, COMO INGLÊS, ALEMÃO, RUSSO.
pois é Felipe…tenho acompanhado seus textos e acho vc um cara genial…tao pouco tempo de formação e com tanto conteúdo obs: a referencia sou eu aqui…tenho 35 anos de formacao!!! rsrsrsrs quase uma vovózinha na psicologia)………. …parabéns! admiro vc……dia desses lendo um de seus textos imaginei vc escrevendo todos os dias, o dia inteiro…sem folgas….rsrs. A nao ser que vc seja um gênio de modo que as palavras e ideias brotem na sua mente e em 1 hora vcs as transcreva!mas vc é um gênio sim….pessoas da sua idade pouco produzem e com qualidade.
agora vou falar desse texto : Por que (ainda) nos ferimos por palavras?…excelente explicação pra mim sobre o\o significado da linguagem chinesa…….mas fui direcionada pelo titulo…pensei num conteúdo completamente diferente do texto…..pensei nas ofensas doadas e nas recebidas….blablabla….vc poderia explanar isso num outro momento…que tal?
bom, fica a dica
tenha uma boa noite (agora 24h51m)
um baitabraço
Beth Maio/Maringá-PR
Oi Felipe, bom dia!
Tenho aproveitado ao máximo suas dicas e reflexões, obrigado por compartilhar o seu conhecimento.
Gostaria de saber onde posso fazer o curso ACT
Grato,
Oi Raquel!
Vale a pena! É um esforço de pelo menos 4, 5 anos mas realmente nos permite conhecer outra cultura. :)
Atenciosamente,
Felipe de Souza
Realmente Maria!
As línguas latinas são mais fáceis geralmente. Mas o mesmo princípio é válido. Por exemplo, se você aprende francês, fica mais fácil depois aprender inglês (muitas palavras inglesas vem da época da colonização francesa na Inglaterra). Depois, se você aprende inglês, fica mais fácil aprender alemão (muitas palavras são parecidas), e assim vai!
Atenciosamente,
Felipe de Souza
Olá Beth!
Há um tempo eu escrevi este texto – Ofensas, xingamentos e críticas – como lidar?
Obrigado pelos elogios! Eu escrevo relativamente rápido sim, 1 hora e 1 hora e meia. O que leva mais tempo é pensar no tema e construir o percurso antes de escrever! :)
Acho que, no fundo, mais do que um escritor eu sou um leitor, um leitor profissional, rsrs.
Atenciosamente,
Felipe de Souza
Ola José Nilton,
Em inglês, temos este Curso Online
Quick Start Guide to ACT
No Rio, temos esse:
Aprimorando habilidades em ACT
Se você domina o inglês, recomendo o livro citado no texto para começar. Infelizmente não há tradução, até onde sei, dele ainda.
Atenciosamente,
Felipe de Souza
Muito bom esse texto, obrigado por nos ajudar sempre, graças aos textos que vc me envia tenho tido um bom desempenho nos meus estudos, obrigados e continua nos enviando as novidades sempre.
Olá, achei muito interessante a colocação final do texto. E me animei bastante com o site a respeito do chinês, estou no momento tentando aprender japonês e encontrei alguns conteúdos bons como “FalemJapones”, são vídeos online, é bem interessante. Também achei outros, no meio dessa busca e atualmente tenho um caderno onde repasso os Hiraganas e Katakanas, uma vez na semana.
Li em alguns lugares que é bom quando se quer uma mudança em algo, fazer isso todo dia, mas percebi dentro das minhas limitações que só consigo definindo as coisas uma vez na semana. Pois tem outras coisas que preciso fazer. E acho que a ideia é criar o hábito e fazer isso.
Antes de decidir começar japonês eu achava que não conseguia, pois não me dei muito bem no inglês e via pessoas que diziam aprender em muito pouco tempo. Como em um blog que vi o relato que a pessoa tinha aprendido os Hiraganas e katanas em duas semanas. Noto que normalmente as pessoas tendem a se comparar – como fiz no passado – e achar que não vai funcionar e desistem quando não aprendem em “duas semanas” como aquela pessoa.
Ocorre que em alguns casos tais pessoas tem mais disponibilidade e planejamento. Uma pessoa que tem muito o que pensar e quer aprender uma língua em duas semanas, não vai acontecer. E essa mania de tentar fazer as coisas funcionarem por “emoção do momento” é algo que acho que ocorre na maioria dos casos, nas tentativas de aprender outras línguas.
Então… fiquei mais empolgada ainda para ir aprender, pois senti justamente isso nos meus estudos. Um som que até então não era nada para mim de repente, tem um significado. Uma palavra que por então não era nada, ganha cor, movimento e etc.
Então ~ gostei muito do texto.
Olá Jéssica!
Obrigado!
Veja também o nosso texto – Por que você deve deixar de se comparar com os outros
E agradeço a sugestão do site para estudar japonês! Você conhece o Rosetta Stone? Me ajudou muito para aprender alemão.
Atenciosamente,
Felipe de Souza
Você escreve, ou melhor, descreve tudo que sabemos e vemos, porém ficamos com os membros amputados, observando … Expectadores do próprio sofrimento , principalmente porque as palavras que ferem são proferidas por quem amamos, ou de alguma forma é relevante para nossa ” sobrevida”. Deixamos as letras fazerem nexo e escarnissarem nossa alma, pois acreditamos nos conceitos proferidos pelo algoz , causando um auto desprezo contínuo … Raramente’ feridos pelas chibatas da língua alheia , conseguimos enxergar com as lentes da verdade. Então farejamos o canto mais escuro e distante, por vergonha de sermos quem ” o outro ” nos diz que somos. Incapacitados de nos amarmos, assumimos a postura de lixo humano, enlutados e eternamente reféns do orador de “facas”. Mutilados seguimos os dias, pois a sombra da solidão nos aterroriza mais do que as frases de quem “moldou uma aberração social”. Que em nossas mentes ,já fustigadas pelas perversidades conceituadas , ninguém poderia convencer do contrário . Afinal uma mentira repetida mil vezes , torna-se verdade ao tocar o horizonte.
Obrigado por comentar Maria!