Um texto de reflexão sobre a pergunta “quem sou eu?”
Olá amigos!
Uma pergunta que perpassa a vida é: “quem sou eu?” Neste texto, vamos falar sobre algumas possíveis respostas, dai o título o eu verdadeiro e os outros eus.
O eu como narrativa
Pode parecer estranho dizer que temos mais de um eu (pelo menos dois) já que isso seria indício de uma fragmentação psíquica ou múltipla personalidade. Mas na pergunta “quem sou eu” vemos que existem dois eus, com muita facilidade:
O eu que pergunta e o eu que observa a pergunta. A resposta mais básica a ser dada é o eu como narrativa, como uma história, como um pouco do passado que chegou até aqui. Por exemplo, posso responder à pergunta “quem sou eu” dizendo:
“Eu sou psicólogo”. Ou seja, digo que durante um período de minha vida estudei na faculdade de psicologia e depois me inscrevi no Conselho Federal de Psicologia e, portanto, tenho uma profissão. A profissão (que vem de professar e também dá a palavra proferir e professor) é um dos lugares-comuns de referência para a pergunta existencial.
Eu sou essa profissão. Fim da resposta.
Outra possível resposta é: eu sou meu nome. Sou filho de_____ e de______. Com esta resposta, estamos trazendo à tona a história de nossa família, nossa origem e, ao mesmo tempo, tanto quanto a profissão, estamos dizendo sobre o nosso lugar social, econômico, religioso, político, etc.
Nestes dois casos, que são exemplos de respostas básicas que ouvimos ou podemos dar a partir da pergunta “quem sou eu”, é visível o eu como narrativa: no meu passado eu fiz isso, isso e aquilo, logo sou essa profissão. Nasci em tal lugar, destes pais, e portanto sou assim.
Não existe nada de errado na resposta do eu como narrativa, a não ser que as narrativas tem um tendência a serem ficcionais, criadas, rearranjadas na memória. Evidente que só uma pessoa fora de si vai mentir sobre a profissão ou família de origem, mas junto destas respostas estão presentes as histórias do passado: local de nascimento, acontecimentos na escola, vivências na adolescência, gostos e desgostos…
Outro ponto a ser observado nas narrativas é que as narrativas não tem fim. Portanto, quando precisamos buscar a referência de quem somos, temos que contar aquelas velhas e gastas memórias de sempre, temos que ficar remoendo o passado, virando e revirando feridas e mágoas ou, na melhor das hipóteses, nostálgicos pelas alegrias pregressas.
Pela perspectiva da psicologia da atenção plena (Mindfulness Psychology), vemos que a saída para o passado é o foco atencional no presente. E, se isto for levado à cabo, adentraremos em outra possibilidade de resposta:
O eu como consciência e autoconsciência
Se a atenção se volta para o presente, as histórias cessam. Sem a necessidade de ter uma referência egoica no passado, a resposta para a pergunta “quem sou eu” pode ser bem outra. Como disse no começo, na pergunta há quem faz a pergunta e quem observa a pergunta sendo feita assim como no presente há um “eu” que observa o que está acontecendo, dentro e fora.
Em geral, falamos desse “eu” como consciência. Na psicologia, podemos falar também com o termo Self. Em alemão, por exemplo, Jung utiliza a palavra Selbst, Si-Mesmo, para falar do centro da psique que está além do eu. Embora tenha outros sentidos, a ideia presente em Si-Mesmo é justamente essa: aquele que observa a si-mesmo. Selbstbewusstsein = autoconsciência. Selbstverwirklichung = autorrealização.
O processo de individuação, para Jung, não consiste em realizar mais e mais uma noção de eu. Na verdade, consiste na realização do Self ou Selbst, na busca de não limitar a vida a uma perspectiva ego-centrada.
Gosto muito do seguinte sonho de Jung, contado em sua autobiografia e recontado pelo genial Jorge Luis Borges, um sonho que pode ser explicativo da diferença entre ego e Self:
“Em sua autobiografia, Jung conta um sonho impressionante (mas qual não o é?). Achava-se em frente a uma casa de oração, sentado no chão e na posição de lótus, quando notou a presença de um iogue mergulhado em profunda meditação. Aproximou-se e viu que o rosto do iogue era o seu. Aterrorizado, afastou-se, acordou e se pôs a conjecturar: é ele que medita; sonhou e eu sou o seu sonho. Quando ele despertar, eu já não existirei”.
O eu, em um sonho, é aquele ao qual me refiro quando digo: este sou eu, este é o meu corpo, este é o meu nome, esta é a minha história. A consciência pode estar tão vinculada a este conceito de um eu determinado que não consegue ver além disso.
Se rompe um pouquinho ao menos este limite, conseguirá ver que a consciência de algo é distinta desta história toda. Podemos estar conscientes de algo que esteja acontecendo fora de nós – como um pôr-do-sol – ou dentro de nós, como o ronco da barriga quando estamos com fome ou o dedão do pé esquerdo.
Mas o mais incrível é ter a consciência de que há consciência. Como no sonho descrito acima: Jung sonha que vê a sua própria consciência, o seu Self, o iogue meditando. Este iogue, então, projeta uma existência que é ele-mesmo. É a consciência de Si-Mesmo, autoconsciência, a consciência de estar consciente quando se está consciente.
Conclusão
O título do texto diz: “o eu verdadeiro e os outros eus” e é uma citação a um livro que tive certa vez do Fernando Pessoa. Fernando Pessoa, o poeta que era ele mesmo (Fernando Pessoa) e outros eus, outros-outros nomes (heterônimos).
A verdade é que todos os eus são fictícios, em última instância, passageiros. A pessoa que acorda pela manhã logo sabe o papel que representa no mundo e esquece o outro eu que acabou de representar em uma imagem onírica tão fidedigna como a imagem fantástica da realidade. O homem assume a posição que era do menino e depois dará lugar ao idoso. Por detrás destas infinitas cenas há um eu silencioso que observa. Quando ele despertar, do sonho que me faz ser, eu já não existirei…
Dr. Felipe, tudo bem?
Adoro o seu site.
Sou estudante de Psicologia (1º semestre) e portador de Depressão.
Já fiz TCC, mas não consegui voltar a ter a motivação e o entusiasmo que tinha antes da doença.
Você poderia ensinar algumas técnicas de TCC para aumentar a motivação rapidamente?
Abraço,
Ricardo Findur
Quer dizer que só somos verdadeiramente um, após a ilusão do mundo material?
Estou gostando dos textos que tenho recebido. Tem me ajudado muito a refletir sobre o meu eu, as pessoas e a vida. A Psicologia é uma área que me identifico muito.
Estou satisfeita com a leitura é estudo que me proponho a fazer sempre que recebo seus textos.
Olá Ricardo!
Fico feliz com sua avaliação de nosso site!
Temos já alguns textos publicados sobre motivação. Veja aqui:
https://psicologiamsn20220322.mystagingwebsite.com/?s=motiva%C3%A7%C3%A3o
Atenciosamente,
Felipe de Souza
Bem, sim e não Maria. Em certo sentido, temporalmente falando, nós acabamos sendo todos. Um idoso é o homem que foi e a criança que foi, mas, também, não é mais.
Em minha percepção, o que fica ao longo dos anos é o eu como consciência e autoconsciência que é independente do que acontece fora (ou dentro).
Atenciosamente,
Felipe de Souza
Este eu como consciência ou auto-consciência seria semelhante ao conceito espiritualista de alma ou espírito (a essência humana que reencarna em diversos corpos, situações, famílias, lugares, épocas distintas) adotando roupagens diferentes, através de ciclos diferentes e sucessivos de experiência encarnada (as personas ou máscaras das existências)?
Olá Alexandre!
Algumas tradições também falam desta definição de autoconsciência com a qual trabalhamos no texto. Mas não é necessário concordar com outros pressupostos, como karma e reencarnação para concordar com a existência de uma consciência que observa, desvinculada de uma história pessoal qualquer.
Atenciosamente,
Felipe de Souza
Sou estudante de Administração e no 2º período (que estou cursando) temos a cadeira de Psicologia, estou simplesmente fascinada com a disciplina. E fico mais encantada a cada texto seu que leio, são maravilhosos.
E sobre esse texto gostaria que explicasse a parte que diz: “Por detrás destas infinitas cenas há um eu silencioso que observa. Quando ele despertar, do sonho que me faz ser, eu já não existirei…”
Desculpe-me a ignorância, é que quero ter a certeza de que entendi.
Obrigada!
Olá Joana!
Eu estava fazendo referência ao sonho do Jung neste trecho do texto, ou seja, sobre a diferença entre o eu e o Self. O Self possui conteúdos que o eu não possui, por isso mesmo podemos ter sonhos de coisas que vão acontecer só daqui a muitos anos. Não é como uma previsão mística ou nada disso. Apenas é a tendência psíquica que se dirige para certo desenvolvimento, sem que o eu perceba a direção que está tomando a favor ou contra.
Atenciosamente,
Felipe de Souza
Estou feliz, por ter conhecido seu trabalho excelente. Gosto demais de Psícologia por isto, irei aprender contigo “Felipe” e todos os mestres da Literatura em Psícologia. Eu irei me realizar, expandindo meus conhecimentos. Muito Agradecida. Felicidades e Sucesso!!! Mia Sales.