Olá amigos!
Uma dúvida muito comum sobre a faculdade de psicologia consiste na definição da área do saber na qual ela se enquadra. Afinal, a faculdade de psicologia é uma faculdade da área de ciências humanas ou biológicas? Neste texto, procuro responder a esta questão, com a minha opinião pessoal, tendo a história da psicologia em vista e a definição da Capes.
Psicologia: humanas ou biológicas?
Como já mencionei aqui no site em diversas ocasiões, a psicologia não é uma ciência unívoca. Na Universidade aonde estudei (UFSJ), o departamento da psicologia era chamado de departamento das psicologias. Ou seja, não há uma única psicologia. E isto tem basicamente dois significados:
– a psicologia possui abordagens epistemológicas que não concordam entre si quanto aos seus pressupostos: psicologia humanista, psicologia comportamental, psicologia analítica, psicologia individual, psicanálise, psicologia positiva, transpessoal, entre outras;
– a psicologia possui áreas de atuação nas quais as práticas também se diferenciam entre si: psicologia clínica, psicologia organizacional, psicologia do trânsito, psicologia institucional, psicologia social e comunitária, psicologia hospitalar, psicologia educacional e escolar, psicopedagogia, neuropsicologia, entre outras.
De modo que falar em uma unidade dentro da psicologia é impossível. Temos sempre que colocar um adendo, um adjetivo ou substantivo, para completar e mostrar com qual conceito da psicologia estamos trabalhando? Estamos falando de psicologia cognitiva ou estamos falando de psicologia do esporte? De que lugar estamos falando?
A epistemologia – a parte da filosofia que estuda o modo como o conhecimento é fundado e construído – nos ajuda a a começar a entender que sempre estão em jogo pressupostos, na teoria e na prática.
Temos a definição da psicologia como a ciência (logia) que estuda a psique. Psique, palavra grega para alma, é, portanto, o objeto desta ciência. Mas como estudar a psique? No laboratório de uma universidade ou nos movimentos sociais? No silêncio e sigilo de um consultório ou nos testes psicométricos?
Desde o começo, os psicólogos tiveram que propor uma forma de estudar e uma forma de definir a psique.
Uma breve história da psicologia
Assim como não é tão simples definir o que é psicologia (por ser difícil definir o que é psique, alma, comportamento, pensamento, sensação?) não é tão fácil datar o início da psicologia.
Estudos sobre a psique (grego) ou anima (alma) existem desde os antigos filósofos gregos. Entretanto, se formos demarcar a fundação da psicologia como uma ciência – e não como uma filosofia – é padrão citar Wundt, o criador do primeiro laboratório de psicologia experimental no fim do século XIX.
Mas mesmo Wundt (que até os dias atuais não foi traduzido para o português) tinha uma visão de que a psicologia deveria comportar, ao menos, duas grandes áreas de estudo:
– A psicologia física ou psicofisiologia (Psychophysic)
– A psicologia dos povos (Volkerpsychologie)
Curiosamente, as duas vertentes podem ser relacionadas, cada uma, com os dois tipos de ciência que estamos tratando aqui. Enquanto a psicofisiologia se relaciona com as ciências biológicas (em alemão, Naturwissenschaft), a psicologia dos povos ou psicologia cultural (Kulturpsychologie) se relaciona com as ciências humanas.
Na época, final do século XIX, os instrumentos para medição das sensações ainda eram rudimentares. Muito do conhecimento obtido em laboratório consistia em perguntar para o sujeito experimental (uma pessoa treinada pelo pesquisador para lhe responder) o que ele via, sentia, ouvia, associava. Várias descobertas da área hoje conhecida como oftalmologia foram feitas a partir destes experimentos, inclusive a descoberta do daltonismo.
Por outro lado, Wundt logo notou que tais experimentos eram insuficientes para explicar outras facetas do ser humano, especialmente a sua inserção em um meio social e cultural complexo. Por este motivo, ele construiu a psicologia dos povos, uma precursora da psicologia social e comunitária (e também da sociologia e antropologia) e de muitos dos conhecimentos utilizados na psicologia organizacional.
Com o desenvolvimento da psicologia no século XX, as duas formas de responder à pergunta – como vamos estudar a psique – foram aperfeiçoadas e engendraram as correntes citadas mais acima.
No final do século XX, a partir da década de 1990, considerada a década do cérebro, a psicofisiologia – agora com o nome de neurociências – deu um salto quantitativo e qualitativo sem precedentes, pela possibilidade de estudarmos o cérebro de maneira direta.
Faculdades de psicologia de humanas ou de biológicas
Para a criação de uma faculdade, a instituição pleitante tem que seguir uma série de normas e regras estabelecidas pelo MEC (Ministério da Educação). Por isso sempre digo aqui no site que olhar a grade curricular de uma faculdade não é tão útil para saber a qualidade de um curso quanto pesquisar outros fatores como a qualidade das instalações, bibliotecas, professores e até o interesse dos alunos de estar ali estudando.
Assim, a grade curricular da psicologia, em toda o país, é praticamente a mesma em todas as faculdades que oferecem o curso. Existem diferenças com relação às disciplinas eletivas ou optativas, mas como estas não representam uma grande proporção, a diferença não será tão significativa como poderia ser.
O que vai diferenciar realmente uma instituição da outra é a formação dos professores. Não só no sentido de ter mais títulos acadêmicos (pós-graduações de especialização, mestrado, doutorado, pós-doutorado) mas de ter uma orientação teórica e metodológica específica.
Ou seja, um professor que pense que a psicologia é a ciência que estuda o comportamento (da linha behaviorista ou comportamental) terá um olhar sobre a psicologia. Um professor, de origem filosófica marxista, que se especializou na psicologia social e comunitária terá um olhar totalmente diferente.
Como um único professor ou uma única professora não representa a faculdade como um todo, será na soma de toda as concepções do corpo docente que veremos se a faculdade de psicologia vai se auto-intitular como uma faculdade de humanas ou uma faculdade de biológicas.
Do ponto de vista da grade curricular do curso, a minha opinião pessoal é de que faz mais sentido incluir a psicologia como uma ciência humana. As matérias de biológicas existem, contudo, são geralmente duas ou três disciplinas apenas (anatomia, neuroanatomia, fisiologia). É quase proporcional ao número de disciplinas que temos que são de exatas (estatísticas).
Então, em minha opinião, como não faz sentido classificar a faculdade de psicologia como uma ciência exata por estudarmos estatística, não faz sentido classificá-la como uma ciência biológica. Na prática também, não vemos psicólogos estudando a biologia e a fisiologia do corpo humano com tanta frequência quanto seria esperado de uma definição tão geral de um curso.
Importante notar que a minha opinião não é tão subjetiva quanto poderia se supor. A própria Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior) do Ministério da educação também coloca a psicologia na grande área de atuação como ciências humanas. Veja aqui
Olá! Sou formada em Pedagogia e Psicologia. O 1º curso tem 19 anos e atuo na área da educação. O 2º tem 8 anos que conclui mas ainda não trabalhei na área. Como estou terminando uma pós-graduação em Avaliação Neuropsicológica, gostaria de receber textos ligados à Neuropsicologia e/ ou também relacionados à Psicopedagogia.
Obrigada.
Adriane
Olá Felipe,
Seus textos são ótimos. É uma delícia lê-los, tão claros e escritos com simplicidade.
Olá Felipe, tudo bem? acompanho e aprecio seu trabalho há mais de um ano, e esse post me reanimou uma questão que tenho faz tempo, no seu post em que fala sobre as 3 maiores forças na psicologia atualmente, você disse que dependendo da faculdade, ela abrange mais uma escola de pensamento do que a outra, e eu como sou um fiel leitor de Jung assim como você, desejo ingressar em uma faculdade da qual sua maior força seja a psicanálitica, mas estou com dificuldade para avaliar qual faculdade seria, mesmo olhando a grade curricular das universidades. Você teria alguma dica de qual faculdade que segue a escola de pensamento psicanalítica com mais vigor? Desde já agradecido, Eduardo.
Acredito, após estudar Epistemologia, que são apenas rótulos criados para simplificar a realidade.
Na verdade, todas as ciências estão ligadas e, portanto, poderíamos afirmar que existe apenas uma única ciência. É preciso uma visão sistêmica.
Por outro lado, o que vemos, hoje, nas Universidades são cursos “profissionalizantes” de Psicologia travestidos de cursos universitários. A maioria dos alunos se preocupa apenas com o conhecimento prático e pouco com a produção do conhecimento. A ideia de Universidade no sentido clássico está com os dias contados no Brasil. E quem perde, com isso, é a ciência!
Olá Adriana,
Obrigado pela sugestão!
Em breve, escreveremos mais sobre o tema.
Atenciosamente,
Felipe de Souza
Obrigado Raquel!
Olá Eduardo,
Bem, sei que a UFRJ é bastante forte na pesquisa em psicanálise lacaniana. Na UFSJ, existem igualmente professores muito bem capacitados (Freud, Melanie Kleine e Lacan). E na mesma, você também encontrará o Prof. Walter Melo, especialista em saúde pública com foco em Jung. Na USP, está lá a Laura Villares, também especialista em Jung.
A melhor forma é procurar pelo corpo docente no site da instituição e, depois, pesquisar o currículo Lattes de cada um.
Atenciosamente,
Felipe de Souza
Olá Renné,
Concordo quanto aos rótulos. Mas sistemas de classificação são nortes que podem ajudar (embora certamente também possam atrapalhar).
E também concordo quanto aos cursos profissionalizantes! É uma pena que seja assim.
Atenciosamente,
Felipe de Souza
olá Felipe, queria saber se o curso de psicologia é de esquerda ou de direita? se tem uma vertente marxista ou é um curso mais neutro politicamente. existe campo de linguagem corporal no brasil e qual função desempenha um psicologo especializado em linguagem corporal e quem oferece emprego pra esse profissional?
Olá Pedro,
Veja aqui – https://psicologiamsn20220322.mystagingwebsite.com/2015/01/psicologia-e-de-esquerda-ou-de-direita-politica.html
Atenciosamente,
Felipe de Souza
Para mim, dizer que psicologia é uma ciência humana é tão claro quanto afirmar que a soma de um e três são quatro. Psicólogos analisam pensamentos, sentimentos, emoções, razão, desejos, preferências, opiniões, visões de mundo, valores, subjetividade, aprendizagem, personalidades, entre outros processos que variam de uma pessoa para outra e são influenciados pelas experiências vivenciadas, pela história de cada ser humano e pelo meio físico e social. Para falarmos de psicologia enquanto ciência biológica, teríamos que reestruturar toda a psicologia e analisar o comportamento humano e os processos mentais à nível de neurociência, o que seria, minimamente, um olhar reducionista sobre o homem. É evidente que não podemos negligenciar os fatores biológicos, mas creio que no momento de perfilar o que somos, a nossa identidade, os aspectos sociais, culturais e históricos nos quais estão imersos cada ser humano têm uma importância bem mais relevante. Além disso, a grade curricular dos cursos de psicologia, como bem explicado no texto acima, são predominantemente humanísticos. Neuroanatomia, neurofisiologia e estatística não são as bases da ciência psicológica, e sim ferramentas de auxílio. Inclusive, existem outras ciências com a mesma situação da psicologia. Economia contém disciplinas de exatas, mas é uma ciência humana ; arquitetura contém disciplinas de exatas, mas é uma ciência social aplicada; geografia tem disciplinas de ciências da Terra, mas é uma ciência humana. A prática quotidiana do psicólogo, bem como as suas áreas de atuação, também permitem encaixar a psicologia no rol das ciências humanas e sociais. Parece haver entre as pessoas um desconhecimento profundo a respeito das diferenças entre o objeto de estudo de uma ciência natural e o objeto de estudo de uma ciência humana. Ademais, numa sociedade capitalista e imediatista, as ciências humanas perdem o seu prestígio. Um bom exemplo disso ocorre quando uma pessoa prefere tomar as ”pílulas mágicas” da indústria farmacêutica a empreender um processo de mudança e revisão de valores através do apoio de um psicólogo. Há também uma conjunção de interesses, pois assistimos a um intenso processo de biologização e patologização de sentimentos e comportamentos normais. Qualquer criança que não aprende tem déficit de atenção e é submetida ao tratamento farmacológico, enquanto as mazelas da escola brasileira ficam escusas. A psicologia é, sim, uma ciência humana, social e da saúde mental e procura compreender o sujeito em sua alteridade.
Olá Weslley, obrigado por comentar!