Olá amigos!

Para quem não sabe o Livro Vermelho de C. G. Jung é uma das maiores novidades atuais dentro da psicologia. Para entender melhor a sua importância, temos que voltar um pouco no tempo.

No início de sua carreira como psiquiatra, Jung trabalhou inicialmente com Eugen Bleuler, que, entre muitos outros trabalhos, foi o criador do conceito de esquizofrenia. Até então esta doença era chamada de demência precoce. Depois de alguns anos realizando diversos estudos experimentais sobre os complexos afetivos, Jung começou a ter contato com Freud e entre os anos de 1907 e 1914, eles foram colaboradores um do outro.

Para se ter uma ideia da importância de Jung na história do movimento psicanalítico, ele foi o primeiro presidente da Associação Internacional de Psicanálise. Porém, por divergências teóricas, Jung deixa a psicanálise para criar, em seguida, a psicologia analítica.

Porém, entre a sua saída da psicanálise e até a criação da psicologia analítica, ele sente-se perdido e sem saber exatamente qual era o seu ponto de vista a respeito da psique, das doenças mentais, do inconsciente.

 Em sua autobiografia, Memórias, Sonhos e Reflexões, ele diz:

“Depois da ruptura com Freud, começou para mim um período de incerteza interior, e mais que isso, de desorientação. Eu me sentia flutuando, pois ainda não encontra minha própria posição”.

E é justamente neste período que ele começa a escrever os chamados Livros Negros, cujo conteúdo foi depois reescrito no Livro Vermelho. Como os conteúdos eram bastante pessoais, com sonhos, imaginações e fantasias, o material nunca foi publicado – até 2010 – com exceção da parte “Sete Sermões aos Mortos”.

O que é interessante no material do Livro Vermelho é que lá podemos encontrarmos diversos conceitos que estarão presentes em sua obra teórica posterior. E, no texto de hoje, vamos falar a respeito dos conceitos de anima e animus.

Anima e Animus no Livro Vermelho

No capítulo 9, intitulado Segundo dia, o autor dialoga com outros personagens, entre eles Elias e Salomé que já tinham aparecido na primeira parte do Livro. Pensando a respeito das relações entre homens e mulheres, Jung escreve que o homem deve encontrar a mulher dentro de si mesmo, antes de buscar ela fora de si, e vice-versa, a mulher deve encontrar o homem dentro de si mesma, para que sua busca externa depois faça sentido.

Em suas palavras:  “a pessoa é masculina e feminina, não é só homem ou só mulher. De tua alma não sabes dizer de que gênero ela é. Mas se prestares bem atenção, verás que o homem mais masculino tem alma feminina, e que a mulher mais feminina tem alma masculina. Quanto mais homem és, tanto mais afastado de ti o que a mulher realmente é, pois o feminino em ti mesmo te é estranho e desprezível” (JUNG, 2010, 263).

Para quem nunca ouviu falar dos conceitos de anima e animus, a ideia central é simples: o homem possui dentro de si uma imagem da mulher, ou seja, nos seus sonhos e fantasias, o eu vai constantemente encontrar figuras femininas, boas e más, que farão referência às suas experiências no mundo, mas também serão arquetípicas, ou seja, universais. Com isso, se analisarmos uma grande sequência de sonhos de um homem, veremos aparecer e reaparecer mulheres como bruxas, feiticeira, deusa, mãe, irmã, esposa, prostituta e por aí vai. E, do mesmo modo, nos sonhos e fantasias da mulher, encontrarmos figuras que vão e vem de diversos homens.

Em suma, no inconsciente do homem há a figura da anima (das mulheres) e no inconsciente da mulher há a figura do animus (dos homens).

Essa ideia de anima e animus será tratada em vários volumes das Obras Completas de Jung e aqui, no Livro Vermelho, podemos ler o começo da elaboração que se transformará em teoria.

Na passagem acima, podemos ver que o que faz de um homem ser verdadeira um homem é ter a possibilidade de ter contato com a sua alma feminina, com a sua anima, enquanto que o mesmo ocorre para a mulher. Neste caso, não estamos falando propriamente de papéis sexuais (heterossexualidade ou homossexualidade), mas sim da concepção presente em toda a obra de Jung de que a busca não é pela perfeição, mas sim da totalidade.

Em outras palavras, quando excluímos uma parte de nossa psique, e deixamos toda uma grande área da nossa vida apenas no inconsciente, teremos problemas porque inevitavelmente esta parte retornará e poderá inclusive causar grandes danos e até doenças mentais.

Se, por exemplo, um homem por se identificar exclusivamente com sua persona de homem, exclui toda a sua anima, paradoxalmente haverá uma modificação psíquica que o fará enfrentar de uma maneira ou de outra o que está excluindo. Por isso, não é raro que o machão intolerante com a perspectiva das mulheres, acabe sendo – nos bastidores – um sujeito afeminado.

Antes de que possam surgir críticas a este respeito – ainda mais em nosso contexto de múltiplas possibilidades sexuais – gostaria de deixar claro que esta questão da união dos opostos sexuais continua sendo válida se passarmos a pensar na dicotomia atividade/passividade. Por exemplo, casais homossexuais (gays ou lésbicas) também apresentam uma dinâmica de uma pessoa assumir um papel e outra pessoa assumir o outro, ativo-passivo, feminino-masculino.

Evidente que na época de Jung as questões eram mais oito ou oitenta e por isso o seu modelo reflete mais a sua circunstância cultural, do homem no papel do provedor da família e da mulher, em casa, cuidando dos filhos.

Para concluir, e retornando ao Livro Vermelho, vemos de novo a ideia de que a busca pelo caminho de individuação, de totalidade, exige a aceitação dos opostos, inclusive a aceitação dos lados de nossa psique que nós normalmente excluímos. Em outras palavras: “Tu és escravo daquilo que precisas em tua alma. O homem mais masculino precisa da mulher, por isso é seu escravo. Torna-te tu mesmo mulher, e ficarás livre da escravização à mulher” (JUNG, 2010, 263).

Quer dizer, quando há o total desconhecimento da anima por parte de um homem, ele estará preso na sua teia, projetando a própria anima em dezenas de mulheres. Isto não será interessante – embora a projeção seja um fator natural – porque há uma confusão entre o que a mulher com que se lida é, em realidade, e a visão que se tem dela através da projeção.

Nesse sentido, a célebre frase de Jung faz todo sentido para concluirmos: ” Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta!”