“Um homem simples e observador morava no campo, e além da companhia de seus pais, ele tinha um cavalo que lhe ajudava nas tarefas diárias.



“Um dia, o cavalo fugiu da fazenda. Enquanto lamentavam a perda do animal, o homem disse:

– Muitas vezes, a sorte surge travestida de tragédia.
– Filho, perdemos o único cavalo que tínhamos! – replicou o pai – E agora?
– Vamos esperar.´



“Alguns dias depois, o homem e seus pais avistaram vários cavalos se aproximando. Graças a fuga, o cavalo conseguiu encontrar vários cavalos perdidos, e os levou para a fazenda. Apesar da fome dos animais, eram todos saudáveis e viçosos.



“Enquanto os velhos comemoravam a conquista, o homem ponderou:

– Muitas vezes, a tragédia surge travestida de sorte.
– Agora é hora de comemorar, filho! Veja só que maravilha! Temos vários cavalos! – rejubilava a mãe.
– Vamos esperar.




“O homem retornou ao seu ofício, preparando os cavalos para as tarefas diárias. Um dia, estava cavalgando com seu antigo cavalo. Desacostumado com a atividade, ele repentinamente entrou em disparada. O homem caiu no chão, quebrou um braço, e teve vários ferimentos graves.

– Filho, você tinha razão! Achamos que esses cavalos eram uma benção, e agora você está ferido!
– Lembra-se do que eu disse logo que o cavalo fugiu, mãe?- Acho que sim… ‘a sorte as vezes se traveste de tragédia’.
– Pois bem… vamos esperar. – disse calmamente o filho.


“Passados alguns dias, houve uma situação de emergência em todo o país. Uma guerra se aproximava.

Vários homens foram convocados, e só foram poupados aqueles que não tivessem condições de lutar.

“Enquanto vários soldados perdiam suas vidas defendendo a nação, o homem ficou em sua terra, e mesmo ferido trabalhou como pôde. Ao se curar, conseguiu trabalhos rentáveis, não só pela baixa mão-de-obra disponível, mas por ter muitos cavalos.



“Ao fim da guerra, estava rico e havia se casado com uma mulher que o amava. Sabendo que a sorte e o azar são faces de uma mesma moeda, usou sua fortuna para ajudar as famílias dos soldados mortos.

“Em uma importante cerimônia, o homem ganhou uma medalha de seu país, por sua atitude generosa com pessoas que sofriam. O público que o aplaudia só não entendeu quando ele quis dedicar seu prêmio ‘a um velho cavalo de sua fazenda, que o ajudou a compreender a incapacidade do ser humano de julgar o valor real das situações pelas quais todos passam em suas vidas'”.




– São João Del Rei, 26 de junho de 2010 –

Texto e ilustrações: Rafael Senra