Se pudesse resumir a série Breaking Bad em uma frase, seria algo tipo “professor de química que, ao descobrir que está morrendo, começa a fabricar drogas para garantir o futuro de sua família”. Lógico que há mais, muito mais que isso, e é toda uma profundidade que se desvela muito lentamente, capítulo a capítulo. Mas a grande questão é: o que faz um cidadão de bem como Walter White passar deliberadamente para as margens criminosas da sociedade?

Sua escolha pessoal (ainda que motivada por um problema de saúde) é justificada pela necessidade de proteger sua família, nem tanto do mesmo universo criminoso em que ele adentra, mas sim de outros perigos comuns a qualquer cidadão trabalhador contemporâneo. Em suma: a perda de poderio econômico.

O raciocínio de Walter é bem afinado com o conservadorismo da classe média. Com a sua morte já previamente esperada devido a um câncer, ele se dedica a acumular dinheiro para que sua família viva confortavelmente após o pior acontecer.

Para concretizar esse projeto, o químico passa por cima de qualquer padrão moral e ético; fato que, apesar de questionável, começa a dar certo. Porém, o desagregamento das relações entre eles cresce paradoxalmente junto com o dinheiro, a ponto de sua esposa Skyler afirmar: “acho que preciso proteger essa família do homem (Walter) que protege essa família”.

Aqui abro um parêntese para discutir como a lógica da classe média americana guarda diferenças para nós, brasileiros. Alguns serviços que já são caros para nós, como saúde e educação (especificamente faculdade) são peças muito mais onerosas no orçamento familiar dos estadounidenses. Em Breaking Bad, vimos como tanto o tratamento de cancer de Walt quanto os problemas de um de seus parentes na 4a temporada revelaram-se contingências capazes de abalar profundamente as contas (salvas, contudo, pelo orçamento das drogas).

No Brasil, tais serviços de saúde e mesmo a projeção da futura universidade para o filho Walter Jr. seriam um pouco mais acessíveis. (e um parêntese dentro do parêntese: quanto a profissão de Walter, não me surpreendeu constatar que professores são desvalorizados em qualquer lugar. Na 1a temporada, ele tem que trabalhar lavando carros para complementar a renda de casa).

No Brasil, a classe média sempre se perpetuou de maneira patrimonialista. O jovem que acredita ser um self-made-man e ter conquistado sua carreira pelo esforço, na verdade se beneficiou do patrimônio familiar: quer seja com a possibilidade de pagar a mensalidade de boas escolas, ou mesmo a de não ter que trabalhar na juventude e poder dedicar seu tempo aos estudos, e ainda por poder, ao longo da vida, conviver com pessoas de cultura letrada – que, por sua vez, já se beneficiaram do patrimônio e venceram na vida (financeiramente falando).

Tal desejo de conservar esse patrimônio familiar talvez se explique pela instabilidade do cenário político brasileiro. Notem que não me refiro nem tanto à economia, mas sim a decisões políticas que podem afetar algumas classes, e diminuir o poder de compra de uns, tirar privilégios de outros – ou, para mencionar um exemplo nem assim tão recente, congelar e confiscar as poupanças de boa parte da população. Encerro (mais ou menos) esse grande parêntese e parto para a conclusão.

Seja em qual classe média for, a de lá ou a daqui, os casos em que o sentimento conservador parece atropelar o bom senso não são raridade. Mesmo que a série constitua seu drama na atividade ilegal de Walter White, não vejo diferença entre ele e os donos de corporações que utilizem trabalho escravo em países de terceiro mundo, ou mesmo empresários que burlam leis ambientais e sociais para implementar seus negócios. O bem estar da família parece mais importante que o respeito ético aos seres vivos e ao planeta: uma afirmação que soa ingênua justo pela sua obviedade; e, no entanto, é frequentemente ignorada.

A conservação do patrimônio se configura para os personagens como a solução mágica de todos os problemas. Essa poderia ser a moral da história, caso o enredo de Breaking Bad não mostrasse inteligentemente as consequências dessa paranoia.

A cada ato que visa o dinheiro fácil e a manutenção do status, um estopim emocional estoura em maior ou menor grau (quase sempre em escalas desastrosas, na verdade). Essa “quebra má” (fazendo aqui um trocadilho com o nome da série), que a princípio poderia aludir a quebras de ligações moleculares, assume assim o caráter metafórico para relações de outras naturezas.

Calmo, mas hiperativo artisticamente. Me arrisco em literatura (contos, romances, poemas), ilustrações e quadrinhos, composições musicais e gravações. Conheça meu site - Rafael Senra